sábado, 26 de março de 2011

Marcelo Gleiser: ciência e religião.

Parece notícia velha, mas a ciência e o ensino da ciência continuam sob ataque. Por exemplo, uma busca na internet com as palavras "criacionismo", "escolas" e "Brasil" leva ao portal www.brasilescola.com. Lá, há um texto, de Rainer Sousa, da Equipe Brasil Escola, que discute a origem do homem.

O autor afirma que o assunto é "um amplo debate, no qual filosofia, religião e ciência entram em cena para construir diferentes concepções sobre a existência da vida". 

No final, diz: "sendo um tema polêmico e inacabado, a origem do homem ainda será uma questão capaz de se desdobrar em outros debates. Cabe a cada um adotar, por critérios pessoais, a corrente explicativa que lhe parece plausível". 

"Critérios pessoais" para decidir sobre a origem do homem? A religião como "corrente explicativa" sobre um tema científico, amplamente discutido e comprovado, dos fósseis à análise genética? 

Como é possível essa afirmação de um educador, em pleno século 21, num portal que leva o nome do nosso país e se dedica ao ensino? 

Existem inúmeros exemplos da tentativa, às vezes vitoriosa, da infiltração de noções criacionistas no currículo escolar. Claro, se o criacionismo fosse estudado como fenômeno cultural, não haveria qualquer problema. Mas alçá-lo ao nível de teoria científica deturpa o sentido do que é ciência e de seu ensino. 

Um país que não sabe o que é ciência está condenado a retornar ao obscurantismo medieval. Enquanto outros países estão trabalhando para educar seus jovens sobre a importância da ciência, aqui vemos uma corrente contrária, que parece não perceber que a ciência e as suas aplicações tecnológicas determinam, em grande parte, o sucesso de uma nação. 

Muitos dirão que são contra a ciência apenas quando ela vai de encontro à fé. Tomam antibióticos, mas rejeitam a teoria da evolução. 

Se soubessem que o uso de antibióticos, que aumenta as chances de que os germes criem imunidade por mutações genéticas, é uma ilustração concreta da teoria da evolução, talvez mudassem de ideia. Ou não. Nem o melhor professor pode ensinar quem não quer aprender. 

Os cientistas precisam se engajar mais e em maior número na causa da educação do público em geral. 

Mas devemos ter cuidado em como apresentar a ciência, sem fazê-la dona da verdade. Devemos celebrar os seus feitos, mas ser francos sobre suas limitações e desafios (a teoria da evolução não é um deles!) Não devemos usar a ciência como arma contra a religião, pois estaríamos transformando-a numa religião também. Achados científicos são postos em dúvida e teorias "aceitas" são suplantadas. 

Bem melhor é explicar que a ciência cria conhecimento por meio de um processo de tentativa e erro, baseado na verificação constante por grupos distintos que realizam experimentos para comprovar ou não as várias hipóteses propostas. 

Teorias surgem quando as existentes não explicam novas descobertas. Existe drama e beleza nessa empreitada, na luta para compreender o mundo em que vivemos. Ignorar o que já sabemos é denegrir a história da civilização. O problema não é não saber. O problema é não querer saber. É aí que ignorância vira tragédia. 



MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"


Este texto foi retirado do blog Conteúdo Livre.
E você, concorda ou não com a opinião do autor?

quinta-feira, 24 de março de 2011

O núcleo do problema: radiação

Na verdade, o que há de mais perigoso na radiação é a quantidade de gente pouco informada que fala sobre o assunto. E passa adiante, fazendo a informação errada ficar mais popular ainda.

Primeiro é importante saber algumas diferenças sutis:

A radiação é, na verdade, nada mais que propagação de energia. O Sol, por exemplo, produz certa radiação, e acho que ninguém quer acabar com ele por causa disso. 


A radioatividade é o fenômeno pelo qual os elementos produzem a radiação, ou seja, propagam energia. Ela se manifesta natural ou artificialmente. Quando ela é natural, o elemento químico é chamado radioativo.


A radioatividade que as pessoas dizem ser “ruim” é a artificial, ela é provocada/induzida pelo ser humano e causou polêmica principalmente por aparecer quase sempre associada na mídia ao assunto catástrofe. 


Inventaram o avião com o objetivo de transportar e ele foi usado na guerra. Planck e Einstein desenvolveram a mecânica quântica com o objetivo de entender a natureza e seus conhecimento foram usados para fazer a bomba atômica e destruir a natureza. O ser humano e suas tecnologias, sempre cheias de paradoxos.

A verdade é que como todo meio de energia, ela tem suas desvantagens ambientais, mas praticamente todas as outras formas de obtenção de energia também apresentam problemas, a diferença principal é a divulgação: anunciar que mais uma hidrelétrica está sendo construída e matará milhares de espécies não vende tanto jornal como anunciar que o mundo pode possivelmente acabar - quando na verdade é mais provável que o ser humano acabe com o mundo pelo viés sócio-político-religioso do que nuclear – dizer que uma nave espacial se desintegrou e matou vinte astronautas é bem mais chamativo que anunciar a quantidade de mortos por dia nas rodovias.

A radiação ajuda pacientes no mundo todo a tratar o câncer – através da radioterapia – e é usada para a esterilização de lixo e dejetos orgânicos, tratamento de esgoto e de lixo hospitalar. Os danos causados pelas usinas são imensos, mas o derramamento de óleo no Golfo do México poluiu e matou milhares de vidas que habitavam aquelas águas e ninguém quis parar a extração do petróleo.

A vida humana não é mais valiosa que a das outras espécies, simplesmente é tratada com mais deferência porque estamos, infelizmente, em maioria numérica com relação à soberba.

A energia nuclear pode conviver com o meio ambiente. A irracionalidade não.






Eco-hipocrisia

Está se aproximando o dia da Hora do Planeta, um movimento que pretende apagar as luzes de diversos lugares durante 60 minutos para, de acordo com os organizadores (a ONG WWF), mobilizar a sociedade em torno da causa do aquecimento global.


A iniciativa é louvável, não fosse um detalhe: Falhou miseravelmente. As pessoas que deveriam ser conscientizadas, em sua maioria, não fazem nada pelo meio ambiente durante todo o resto do ano. As pequenas atitudes que podem ser tomadas sendo respeitado o bom senso (o que não inclui, como sugeriram no twitter, reutilizar a água da máquina de lavar) normalmente não são tomadas por essas pessoas. 


Isso quer dizer que a Hora do Planeta se tornou uma espécie de mea culpa que as pessoas fazem, sendo o raciocínio o seguinte: "Eu apago minhas luzes por uma hora, estou colaborando".


"Ah Guto, mas até os governos apagam as luzes"


Os governos, esses antros de boa vontade, apagam as luzes por que é extremamente populista afirmar que eles 'apagam as luzes pelo planeta'. Com um detalhe importante: Eles só apagam as luzes de monumentos e etc., que chamam a atenção. Aposto um bombom como o Palácio do planalto vai estar aceso e com os ar-condicionados ligados durante a Hora do Planeta.


Se eu perder a aposta e você viu essa postagem (e, claro, tiver como provar que o Palácio estava apagado) me mande um e-mail com seu nome e endereço que o bombom chegará.

Back In Black

Depois de um certo tempo abandonado, o É Muito Complexo voltou às postagens.
Agora com a ajuda de Raizchan, autora do blog.


O foco do blog, que anteriormente visava assuntos de ordem principalmente religiosa, passa a ser todo e qualquer tema que possa vir a gerar um bom debate, com argumentos e contra-argumentos.


E se você achar qualquer assunto muito complexo, fique tranquilo... nada é muito complexo, só trabalhoso de pensar.